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Ramiz Alia (à esquerda) e Enver Hoxha, 1982 |
“Se alguém estuda o Congresso albanês, vê os problemas econômicos sérios que eles têm, esse caminho que seguem não foi tomado por Ramiz Alia, mas sim por Hoxha. Hoxha escrevia em 78 que na Albânia já não existiam classes antagônicas. Sabemos muito bem o que resulta disso, pois Mao já trabalhou muito bem a questão.”
[Presidente Gonzalo, entrevista ao El Diario, 1988]
Quem de nós nunca ouviu uma piada parecida, “quantos fulanos são necessários para trocar uma lâmpada”? E você sabe quantos seguidores anti-maoístas de Enver Hoxha são precisos para resolver um problema de ordem econômica e social?
Quantos
partidos seguidores do marxismo-leninismo “puríssimo” de Enver Hoxha estão
atuando em guerra popular, ou melhor, fazendo revolução?
A nossa
crítica se volta especialmente para o Partido Comunista Colombiano
(Marxista-Leninita)/Ejercito Popular de Liberación. Nestes 50 anos do
rompimento dos comunistas colombianos e sua reorganização em 1965, os 40 anos
da morte do grande dirigente comunista colombiano Pedro León Arboleda, e os 40
anos de encerramento das operações guerrilheiras no Araguaia, expressamos nosso
repúdio à burrice dos seguidores de Enver Hoxha, que jogaram na merda processos
revolucionários que atualmente colocariam o imperialismo em xeque, como no
Brasil, Colômbia, Etiópia e tantos outros lugares.
De fato,
desde o seu surgimento até a cisão sino-albanesa em 1976-77, o Partido do Trabalho
da Albânia prestou grande ajuda ao movimento revolucionário internacional,
especialmente entre 1962 e 1978 quando a luta estava focada contra o
imperialismo ocidental e o social-imperialismo soviético. Tirana, capital
albanesa foi o abrigo de muitos exilados políticos, entusiastas da revolução e
fortaleza contra as aberrações ideológicas surgidas em centros acadêmicos da
Europa ocidental e a sabotagem revisionista no leste. A antiga rádio Tirana
fazia transmissões diária em português e castelhano, revolucionários de todo o
terceiro mundo se debruçavam em volta dos rádios de pilha nas selvas para ouvir
as palavras de apoio e notícias revolucionárias vindas da Europa. Assim também
era quando chegava o horário das transmissões em português e castelhano na
antiga rádio Pequim.
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Anúncio das transmissões em português publicado no antigo jornal A Classe Operária. |
Até aí
tudo bem, porém, a confusão político-ideológica que se seguiu após a morte de
Mao mostrou a incapacidade do Partido do Trabalho da Albânia em liderar uma
grande onda revolucionária em escala mundial como a China estava fazendo até o
final dos anos 70. Muito mais do que ter rompido com a China, os albaneses,
especialmente Hoxha culparam ao presidente Mao por esta desgraça (a restauração
do capitalismo na China) e tantas outras, de modo que não foi capaz de
compreender a fundo o pensamento de Mao na época da unidade entre os dois
países, e em vários casos, onde Hoxha dizia ter feito “descobertas” no
Marxismo-Leninismo, não passavam de cópias fajutas de artigos escritos pelo
presidente Mao nos anos 30 e 50.
Toda a
luta albanesa contra o “revisionismo maoísta” foi tempo perdido, nós, os
maoístas somos como o rabo de lagarto, acabou-se Mao, acabou-se Lin Piao, Grupo
do Quatro e o socialismo na China, porém, seguimos nos desenvolvendo por
debaixo dos panos do sistema, sem entregar armas, e fazendo o possível para
dinamitar o parlamentarismo burguês e todas as suas instituições que se
encontram em avançado estado de putrefação. Seguimos desenvolvendo guerra
popular, fazendo experimentos científicos sociais (mobilizando as massas para o
boicote de eleições, criando e fortalecendo bases de apoio, trazendo elementos
da massa oprimida para o nosso meio) e experimentos bélicos (aprendendo fazer
bombas, trabucos, hackeando sites, ondas de rádio e tudo aquilo que a reação já
conhece e tanto teme), sem precisar de urnas.
Também foi tempo perdido lutar contra uma linha ideológica que, se tivesse sido adotada pelo PTA provavelmente teria prolongado a vida do socialismo na Albânia, ou ao menos, teria motivado suficientemente as massas para voltarem às montanhas e combaterem numa guerra popular prolongada os restauradores do capitalismo.
Ramiz Alia, que foi o sucessor escolhido por Enver Hoxha, não foi capaz de salvar o país que segundo Hoxha, tinha “entrado na fase socialista” , muito ao contrário, foi o responsável pelo colapso do “ninho das águia de duas cabeças”.
A experiência
hoxhaísta no Brasil
Tanto no
Brasil como na Colômbia no final dos anos 70 a linha dogmato-revisionista
albanesa tomou conta da cúpula dos Partidos Comunistas, colocando divisão, e
freio no seio de processos revolucionários desatados no final dos anos 60 e
início dos 70. Muito do trabalho árduo e sacrifício de importantes
revolucionários foi colocado abaixo tanto pela linha revisionista da Albânia
pós-76 quanto pela linha revisionista de Deng Xiaoping na China.
Nós
comunistas brasileiros e talvez alguns camaradas de fora também conheçam o
básico da história do PCdoB, que se desenvolveu como uma ruptura com o
oportunismo do PCBrasileiro e a camarilha de Prestes em 1962 e que dez anos mais tarde experimentaria
aplicar o princípio da guerra popular prolongada, porém devido à falta de
preparo da liderança, a guerrilha ficou fadada ao foquismo e não conseguiu
repor as baixas sofridas, tanto em recursos humanos quanto em material bélico,
apesar de terem ferido e matado vários soldados do exército, não conseguiram
capturar nenhum fuzil ou metralhadora dos fascistas. Porém, como o
marxismo-leninismo-maoísmo é uma ciência, a guerrilha do Araguaia deve não deve
ser considerada apenas como um ato heróico ou uma tentativa mais ou menos de se
iniciar uma guerra popular, mas como uma experiência científica, cuja análise
dos resultados feita por Pedro Pomar (principalmente) e Ângelo Arroyo nos
revelaram como proceder de forma correta e reiniciar e/ou continuar o trabalho
do desenvolvimento do exército de Novo Tipo sob o comando do Partido de Novo
Tipo.
Porém, na
época (1972-1976), o Partido Comunista do Brasil já estava sendo contaminado
pela linha dogmato-revisionista dos albaneses, cujos principais difusores eram
João Amazonas e Diógenes Arruda. Uma linha divisória entre “maoístas” e
“hoxhaístas” já estava tomando forma no Partido em meados dos anos 70, se
olharmos as edições do jornal A Classe Operária da década de 70, veremos um
misto, entre artigos que exaltam a guerra popular, e artigos que exigem a
formação de “uma assembléia constituinte e democrática”, ou seja, era a guerra
popular versus o oportunismo eleitoreiro herdado dos oportunistas anteriores.
Golpes
internos e especialmente externos fizeram com que a direção do PCdoB nunca mais
retornasse à região do Araguaia, a não ser para buscar os restos perdidos dos
nossos guerrilheiros (dizemos nossos porque não lutavam pelo oportunismo
eleitoreiro, eram guerrilheiros do povo, entendiam os ensinamentos de Mao
Tsé-tung até melhor do que alguns dirigentes do PCdoB que pouco tempo depois
levariam o partido a abandonar o caminho da luta armada e colocariam o partido
como mero apêndice do PT. Quantos partidos e organizações que bradavam
revolução também se converteram ou em alas do PT ou em alas do MR-8 (hoje mais
um partido eleitoreiro chamado PPL).
As primeiras
experiências na América Latina e a experiência da guerra popular na Colômbia
Antes da
grande ruptura entre o PCUS e o PCCh nos anos 60 e bem antes do início da
guerra popular no Peru em 1980, na América Latina alguns partidos já estavam
tentando aplicar a linha da guerra popular prolongada, ou ao menos baseados em
levantes camponeses, como foi o caso do Partido Comunista Salvadorenho que em
1932 atuou no levante de índios e camponeses que tomou conta de metade do país,
infelizmente a falta de prática levou à morte de milhares comunistas,
camponeses e a quase extinção das tribos indígenas em El Salvador.
Depois do levante indígena-camponês ocorreu o levante de 1935 aqui no Brasil, diferente de lá, o levante ocorreu não em fazendas e aldeias de cidades pequenas, mas em quartéis das grandes cidades como Rio de Janeiro, Natal, e Recife. A ideia da liderança era fazer a revolução “ao contrário”, partir das cidades para o campo, o que se mostrou um erro total apesar das advertências de apoiadores internacionais do Partido Comunista no Brasil. Porém, quando o levante foi sufocado em novembro de 35, as colunas militares que marchavam para o interior se dispersaram e se organizaram em pequenas guerrilhas, sendo que a do Rio Grande do Norte que contava com um pouco mais de 30 combatentes, desbaratou vários ataques policiais e resistiu até os primeiros meses de 1936. Uns dez anos mais tarde o PCB novamente organizaria núcleos do Exército Popular nos levantes camponeses em Porecatu no estado do Paraná, porém, finalizaria a luta após a entrega das terras aos camponeses e a participação no meio eleitoreiro nos anos 50.
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Recorte de jornal do começo dos anos 50 mostrando a foto de um soldado da polícia e um camponês pobre, as duas forças em choque no Paraná entre o final dos anos 40 e começo dos anos 50. |
Outra
experiência um pouco mais duradoura ocorreu no Paraguai entre 1959 e 1965 na
FULNA (Frente Unida de Libertação Nacional), frente liderada pelo Partido
Comunista Paraguaio, porém, devido à luta interna entre a aplicação da linha da
guerra popular e do foquismo, (algumas colunas guerrilheiras atuavam como na
guerra popular, e outras seguiam o modelo cubano, não havia unidade) a
organização acabou desmantelada internamente e externamente em 1965, de modo
que os comunistas paraguaios apoiadores da guerra popular se reorganizaram como
Partido Comunista del Paraguay (PCdeP) e só conseguiriam pela segunda e última
vez uma tentativa de guerra popular em 1980, que foi rapidamente contida pelas
tropas fascistas de Stroessner...
Porém uma
das primeiras, senão a primeira experiência completa e bem sucedida de guerra
popular na América Latina antes do Peru iniciou na Colômbia. Longe da linha
guevarista e na época pró-soviética das FARC e ELN, o Partido Comunista da
Colômbia - Marxista Leninista reorganizado em 1965 assumiu o trabalho de
constituir um Exército Popular de novo tipo entre o povo colombiano, que em
pouco tempo conseguiu desatar uma guerra popular, assim, em agosto de 1966,
forma-se o primeiro destacamento Exército Popular de Libertação
. Não precisou muito tempo para que o EPL colombiano se tornasse alvo das campanhas de cerco e aniquilamento do exército fascista colombiano. A primeira campanha de cerco e aniquilamento ocorreu em 1968, no qual muitas plantações, casas e vidas foram destruídas pelo exército colombiano, e naquele cerco tombou Pedro Vasquez importante dirigente do partido e do EPL. Porém, estes duros golpes forjaram o partido e o exército popular no calor da batalha, fazendo com que aniquilassem 200 soldados do exército fascista colombiano, e, até o ano de 1970 após a segunda campanha de certo e aniquilamento, o EPL já contava com 17 destacamentos guerrilheiros, segundo o informe do jornal A Classe Operária de outubro de 1975.
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EPL entregando armas, anos 80. |
Até
aquela data, o exército popular de libertação contava ainda com áreas onde
estava sendo construído o Novo Poder, através das Juntas Populares, e
planificação da economia local. Este era o poderoso PCdeC-ML que trazia
esperança para as massas e desbaratava batalhões do exército fascista da
Colômbia. Porém, os tempos mudaram... O fim do socialismo na China, a forte
influência do marxismo-leninismo escolástico e petrificado do Partido do
Trabalho da Albânia levou não só os comunistas colombianos, mas também tantos
outros partidos para caminhos confusos que os fizeram no final das contas entregarem
as armas em trocas de “acordos de paz” e, ou, em troca de “eleições livres”.
Até 1980, dentro do partido havia uma linha que defendia e aplicava o
pensamento de Mao Tsé-tung, porém, naquele ano, durante o congresso do
PCdeC-ML, o partido abandonou os conceitos corretos do presidente Mao alegando
que “deveriam se concentrar militarmente nas zonas industriais”, porém, isto
serviu como uma porta de fuga para o partido iniciar o processo de capitulação.
As primeiras negociações de paz ocorreram em 1984, tendo sido rompidas em
meados de 1985. Depois ocorreu uma grande deserção do EPL a partir de 1989, e
desde a década de 90 o partido vem “lutando” por acordos de paz, possuindo
armas modernas, mas afastado das massas, como pode ser visto neste comunicado
publicado em novembro de 2014 intitulado: “MENSAGEM
AO ENCONTRO PELA PAZ” E TODAS AS MULHERES E HOMENS DO POVO COLOMBIANO”.
“Nos unimos ante ao clamor por um cessar fogo
bilateral e as hostilidades, assim como a derrogatória completa da legislação
de guerra. Saudamos o apoio e solidariedade que brindam os povos irmãos e a
comunidade internacional aos esforços por uma paz com justiça social em nosso
país. Tudo isto é um grande estímulo para nosso povo e todos os lutadores para
se manterem n abriga pelas conquistas democráticas”.
Tanto o
partido como o EPL ainda existem, e atuam no território colombiano, porém, de
uma maneira muito menos intensa do que nos anos 70 e com uma linha política
muito diferente do partido organizado por Pedro León Arboleda e Pedro Vasquez.
Pior do que ter abandonado o maoísmo, ter feito vários acordos de paz com as
bendições dos albaneses nos anos 80, agora está a pedir trégua para o governo
colombiano, disposto a entregar suas armas e desmobilizar os guerrilheiros em
troca de reformas num sistema tão podre e corrompido que é o governo
burocrático-buguês da Colômbia..
A solução é:
mais e mais guerra popular!

Em um momento tão complexo como o deste século, onde o padrão de vida das massas se torna cada vez pior, onde os governos burocrático-burgueses estão cada vez cortando os direitos do povo, aprovando leis cada vez mais fascistas. Nesta época onde novas tropas americanas desembarcam na América Latina, e seus mercenários islâmicos causam danos ao povo do oriente médio e em várias regiões da África, o abandono da toda-poderosa luz guiadora do presidente Mao Tsé-tung, a entrega de armas não são opções, a esperança na mudança de governo através de conversações de paz com narco-governantes não é e nem será uma solução para os problemas sejam eles na Colômbia, Peru ou qualquer outro país sob as garras do capitalismo.
Este tipo
de contradição (entre o imperialismo e os povos oprimidos) não será resolvida
apenas com acordos de paz, não é “paz de cemitérios” como dizem os camaradas do
PCP, mas a solução para o flagelo do imperialismo será a guerra popular em
escala global, cada povo oprimido, o povo de cada colônia remanescente, o povo de cada semi-colônia
deve se organizar num Partido Comunista de Novo Tipo, formar um Exército de
Novo Tipo e uma Frente Unida de Novo Tipo para se levantar contra o
imperialismo e os seus lacaios de fora e de dentro. Esta avançada concepção
delineada pelo presidente Mao não é fruto de um mero militarismo, uma simples
belicosidade, mas uma tarefa urgente, que visa a solucionar problemas como
desmatamentos, invasão de terras indígenas, intervenções militares criminosas,
corrupção em governos, má distribuição de renda, tráfico humano, tráfico de
drogas, problemas grandes e problemas pequenos que afligem ao mundo todo devido
à ganância das potências e seus tentáculos de “empreendedores”. Ou você acha
que os imperialistas entregariam de bandeja todas as suas fontes infindas de
dinheiro? Isso só existe nas músicas dos Beatles.
A ilusão
com as eleições dentro dos limites do governo burocrático-burguês ou de
capitalismo avançado deve ser rechaçada pelas organizações populares e
revolucionárias. Vivemos sob sistemas completamente desiguais, por dentro e por
fora. Ainda que seja num contexto onde haja regimes claramente ditatoriais como
as ditaduras latino americanas dos anos 70, a via parlamentar dentro dos
limites do estado burguês é uma grande arapuca para quem não está bem
esclarecido. Como poderemos entregar as armas para governos serviçais do
imperialismo? Como deixar de lado tudo o que as velhas instituições fizeram ao
povo e aos revolucionários? Entregar as armas, firmar acordos de paz e anistia
com os velhos governos não é mera conciliação, mas uma grande traição à luta
pela liberdade do povo!
Mesmo que os capitulacionistas que conspiram para a rendição e a ruptura consigam passar temporariamente para a mó de cima, eles não conseguirão mais do que acabar desmascarados e punidos pelo povo.
[Mao
Tsé-tung, Contra as atividades capitulacionistas, 30 de junho de 1939]